Propagandista

Trabalho em uma assessoria de imprensa. Que frustrante. Uma jornalista numa assessoria de imprensa é quase um peixe fora d’água. A maior vergonha é ver os erros e mancadas de uma empresa e ainda assim, servi-la. É quase um desserviço. E quando se trata de uma empresa pública, a vergonha consegue ser quase a nível cúbico, porque, a mesma equipe de assessoria é aquela formada por cidadãos que pagam seus impostos e convivem com aquelas falcatruas e o que lhes resta é abanar o rabo e servir com lealdade uma figura pública qualquer. Chega a ser cômico como não se dão conta que os verdadeiros prejudicados são eles mesmos. Protegendo e zelando pela imagem de empresas mal administradas e engessadas pela burocracia, falta de competência e má vontade de centenas de servidores públicos, servindo de pedra de tropeço para o progresso estadual.

A merda só não pode ser maior, quando a dita figura pública tem aspiração às alturas. O político não quer ser um político como qualquer outro, de terno e gravata e fazendo aquelas coisas que  quase ninguém entende. O que ele quer mesmo é estampar capas de revista e se tornar o homem do ano. Legal. Só esqueceram de avisar que pra ser badalado, ele precisaria trabalhar na Globo e não numa secretaria fudida, sem dinheiro, prestígio ou qualquer coisa que o valha.

E eu? Eu faço parte da equipe! Contribuindo para a manutenção de um site estruturalmente patético, para a manutenção de um sistema sem sentido, serventia, razão. E nesses momentos é tão difícil acreditar que o conhecimento é libertador. Não é possível. Trabalho com pessoas que tem o dobro da minha idade, que estudaram em instituições renomadas, que tem pós graduação, que estudaram até mesmo no exterior.

Isso me faz pensar que  a mídia, por si só, não é influenciadora. Isso pode parecer óbvio, mas quando você vê na prática pessoas dando o seu sangue por algo sem nenhum prestígio ou validade (não estou dando um sentido moralista às funções trabalhísticas), alienando-se a favor de uma coisa que não tem porquê existir, um mecanismo falho, antiquado, fica impossível legar aos meios de comunicação o problema da alienação e do desinteresse nacional em relação à maquina pública.

Ontem me pediram para que eu aliviasse a barra do nome de uma das empresas vinculadas a secretaria. A pessoa veio com um sorriso no rosto e disse: Jacque, melhora os aspectos positivos. Eu disse: Vigi, tá difícil, hein? Ela sorriu respondendo que era por isso que pedia para que eu aliviasse a barra. Onde trabalho, faço um relatório mensal de clipping. Por mais primário que possa parecer, me sinto um arauto do saber quando entrego meu relatório. Sei do que se passou no decorrer do mês e se esquecer, consulto meu banco de dados. E nunca tem coisas boas lá. Então questiono-me, como uma assessora pode se sentir culpada se suas notícias positivas relacionadas a algumas intervenções artísticas ou campanhas em áreas distantes da cidade pode se sentir preocupada ou culpada se toda a mídia está caindo matando em algum escândalo de corrupção, ou ameaça de greve por parte dos trabalhadores da empresa? Será que ela esqueceu que notícia boa é notícia ruim? Será que ela esqueceu que manda releases para jornalistas e não paga para fazer propagandas?

Quando decidi investir em duas faculdades, acreditava piamente que o conhecimento adquirido no curso de História me ajudaria a ser uma profissional melhor em jornalismo. Hoje entendo que a única coisa que preciso, no lugar onde estou, é saber reproduzir discursos. A estupenda arte do papagaio.

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