Metalinguístico

Eu sempre leio muitos livros, muitos textos e muitas hq´s. Já me identifiquei com personagens, já ri das desgraças de uns, já chorei a dor de outros. Mas nunca li um texto para mim.

Os textos publicitários até tentam me enganar com sua falsa amizade e preocupação. Mas nunca  falaram comigo. Nunca foram escritos para mim, seus objetivos eram alcançar minha carteira.

Quando um texto chega à minha mão, ele já está maculado, lido, relido, estudado, violado.

Então eu quis criar um texto virgem.
É um texto que ninguém leu e que não tem proposta pedagógica, nem tema, nem mesmo título, é só um monte de palavras virgens escritas para alguém ser o primeiro a ler.

E um dia , quem sabe, outras pessoas vão ler também, e ao redor dele formar um debate e expô-lo à ignomínia. Podem desnudá-lo e apontar suas falhas gramaticais, podem sugerir palavras melhores, podem sugerir maior fluidez, podem rabiscá-lo, fazer anotações, podem fazer o que quiser, e neste momento eu estarei longe… Mesmo que eu esteja perto, estarei longe, porque eu não serei mais a autora, alguém já vai ter tido uma interpretação errada e ele vai ter sido arrancado de mim, distante do que eu queria dizer e ser estudado como um objeto qualquer. Como em uma ficção científica, vão arrancá-lo de meu útero antes da hora e abortado, será colocado em um vidro com formol para ser analisado pelos cientistas.
Depois de tanto trabalho, terei que vê-lo neste estado de horror. Mas isso é só uma suposição. Ele pode também ser lido e jogado no lixo, ou no fundo de uma bolsa. Talvez, vai passar o fim de semana no bolso de um jeans e depois ir parar na máquina de lavar. Muitos são os caminhos que ele pode percorrer.
 
– Mas afinal de contas, por que agente existe então? Por que um dia nós viraremos objeto de estudo?
A gente existe para comunicar e depois ser descartado, humilhado, largado às traças em uma biblioteca poeirenta? Que injusto com a gente! Ou pior: Catalogados!  
Eu não quero que esse seja o meu fim, preciso pensar…
 Já sei! Quero ser um texto vivo. Serei um presente.
Presentes não são medidos e nem pesados. Não podem ser vendidos ou leiloados. Não podem ser recusados e nem questionados! Pronto! Serei um presente.
E como um texto vivo e presente, agora eu posso andar e falar! 
Liberdade de expressão! Caramba… sempre isso me pareceu utópico! Quero ver o que a mídia vai fazer para me segurar! Quero ver os moralistas me segurarem! Sou plenamente livre!
EI! Você está me olhando… Tá morrendo de inveja da minha liberdade, né? Você que gosta de procurar o que está nas entrelinhas, olhe aqui, vê se você acha alguma coisa a ser questionada… 
Desculpe se fui grosso, sou um texto livre e desaforado que só…
Se você não gostar, pode ir embora… Vai lá, feche a folha na minha cara! Pelo menos ainda serei imaculado.
Mas se quiser, pode continuar…
Agora que decidiu ficar, vejo seus olhos passearem lentamente sobre mim. Eu acho ( não posso afirmar com certeza, pois sou um monte de palavras) que estão curiosos e não preocupados com os  ingloriosos erros gramaticais que me desnudam, para saber onde quero chegar. Pois saiba, caro leitor, que na condição de um presente livre, posso me arrastar vagarosamente por páginas……………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………………….. e encaminhá-lo ao deserto, ou em uma frase, dizer o necessário, posso ser uma jiboia e apertar-te até a morte, posso ser uma rosa deslizando suavemente sobre sua pele.Então, contente-se como um leitor e espere para ver onde chegaremos. Ou melhor, espere para ver onde eu te levarei, afinal, eu sou livre e pouco me incomoda sua interpretação.
Acomode-se aqui, entre minhas palavras, escolha seu espaço, aperte o cinto porque iremos viajar.
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